Apartamento de 400 metros quadrados no centro tem 1 morador


O Estado de São Paulo, 13/05/2001

Agricultor aproveita privilégio de viver na área com menor taxa de ocupação por domicílio

Monalisa Lins/AE

Raduan voltou a morar no centro em 1995 e desde então usa raramente o carro e se sente mais seguro do que na Avenida Faria Lima, na zona sul da cidade, onde trabalha

 

LUCIANA MIRANDA e HERTON ESCOBAR

Um apartamento de 400 metros quadrados na Avenida São Luís, em pleno centro da cidade, só para uma pessoa. "Moro aqui com Maria Quitéria", diz o agricultor Marco Antônio Raduan, de 60 anos. Maria Quitéria é sua cachorra, da raça labrador. Prestes a completar um ano, ela se esbalda em tanto espaço. Só a sala tem 15 metros de comprimento.

Raduan mora onde os recenseadores do Censo 2000 encontraram o menor número de pessoas por domicílio. A média do distrito da República é de 2,24 moradores em cada residência.

Nascido em São José do Rio Preto, no interior, o agricultor começou sua história em São Paulo no centro. Há 42 anos, veio para a cidade estudar.

"Enquanto era estudante, morei em uma quitinete na Major Quedinho. Meu convívio com a cidade foi muito prazeroso, conheci São Paulo a partir do centro."

Estudou, se formou, se casou e trocou o centro pelo Jardim Paulista. Depois de 25 anos de casado, veio a separação e Raduan teve de procurar um lugar para morar. "Pensei: vou para a Avenida São Luís." Foram quatro meses de namoro com todos os apartamentos à venda na avenida, até encontrar o seu.

Desde 1995, Raduan está de volta ao centro num apartamento enorme que custou R$ 120 mil.

"Uso a cidade, conheço-a e convivo com ela muito bem. O comércio daqui tem tudo; a única diferença é não ser de grife, mas não ligo para isso." Com tudo a poucos passos, o carro de Raduan chega a ficar 15 dias sem uso.

"Preciso pedir para o zelador ligá-lo de vez em quando."

Dentro do apartamento de Raduan, ninguém diz estar no centro de São Paulo.

Ao contrário do que se imagina, o barulho do tráfego não invade a residência. "À noite, o silêncio é sepulcral." Nem precisa ser muito tarde:

a cidade se acalma a partir das 19h30.

Raduan também soube usar artifícios para garantir seu paraíso na São Luís.

Em seu quarto, as grandes portas de vidro que dão para a varanda são anti-ruído. Garantia de um silêncio daqueles de ouvir a própria respiração quando, lá fora, a cidade está em pleno horário de pico.

É por gostar de ficar em casa que Raduan reformou o apartamento para deixá-lo perfeito. "Raramente, tenho diversão melhor do que ficar em casa."

Ele tem motivos de sobra para isso.

Além de fazer tudo a pé, sem ter de enfrentar trânsito, Raduan se sente seguro no centro. Seu escritório fica na Avenida Faria Lima - local escolhido por estar na metade do caminho entre sua casa e a de seu sócio.

"Não gosto da Faria Lima; o centro é realmente mais seguro do que lá."

Espaço de sobra - O caso do agricultor é uma exceção. A razão de tão pouca gente em apartamentos tão grandes é a fragmentação das famílias e a dificuldade do aluguel, segundo o diretor-executivo da Associação Viva o Centro, Marco Antônio Ramos de Almeida.

Os filhos das grandes famílias que preencheram esses imóveis 20 ou 30 anos atrás cresceram e mudaram-se para apartamentos menores e mais baratos. Já os pais, mesmo com espaço sobrando, preferiram ficar onde estão para evitar complicações com o aluguel e a procura de um novo imóvel.

"Alugar é sempre uma dor de cabeça, por isso a mobilidade domiciliar das pessoas é muito restrita", afirma Almeida. Ele culpa as leis federais de inquilinato, muito exigentes, restritivas e burocráticas. "É preciso uma legislação que dê mais flexibilidade ao inquilino e ao proprietário." A conseqüência está refletida no Censo: mais de 420 mil residências vagas na cidade (12% do total de domicílios).

O urbanista Paulo Ricardo Giaquinto, chefe do Departamento de Planejamento e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, aponta outro fator de peso: o baixo valor do imposto domiciliar paulista. "O IPTU em São Paulo é um décimo do de Nova York", diz. "É mais barato deixar o imóvel parado do que alugar." Segundo ele, apenas 10% da infra-estrutura de água, esgoto e eletricidade do centro é utilizada durante a noite, por falta de moradores.

O esvaziamento do centro não é novidade para os urbanistas, que há décadas vêm acompanhando o fenômeno. Para Almeida, a raiz do problema está no âmbito legislativo. "O zoneamento de São Paulo encarece e dificulta tremendamente a construção de moradias nas regiões mais centrais", explica. "As pessoas acabam tendo de ir morar mais longe, e aquelas que já moravam longe têm de ir para mais longe ainda."

Para revitalizar o centro, diz Giaquinto, é preciso mais do que atrações culturais. É preciso investimentos de peso em infra-estrutura de transporte e serviços para atrair a classe média. "Cultura é sempre bom, mas não atrai moradores. Tem de haver uma reforma econômica e social também."