COMPROVADO CÃO É O MELHOR AMIGO DO HOMEM
IstoÉ (04/04/2004) - Uma
experiência pequena, mas com resultados animadores, está empolgando
pesquisadores da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da
Universidade de São Paulo, campus de Pirassununga. O trabalho, coordenado pelo
professor Marcelo Ribeiro, consiste em usar animais para
ajudar crianças com deficiências mentais a melhorar o desempenho escolar.
Há três anos, os
cientistas levam pacientes atendidos pela Associação de Pais e Amigos dos
Excepcionais (Apae) da cidade para participar do trabalho com os bichos
abrigados no setor de criação. As crianças cuidam de cabras, coelhos, peixes,
etc. Durante as atividades, aprendem conceitos e desenvolvem habilidades de
maneira fácil e divertida. Quando acompanham o ganho ou a perda de peso de um
coelho, por exemplo, entendem as operações básicas da matemática. E elas
preparam relatórios sobre tudo o que fazem, o que as auxilia a deslanchar no
português. Além da evolução no aprendizado, os pequenos ganham um sentimento
que muitos nem sequer haviam experimentado: auto-estima.
Essa mesma sensação enche de alegria o coração do menino Leonardo Neves, 11 anos, cada vez que ele monta o cavalo Pantanal, em meio ao verde do Haras Pégasus, no Rio de Janeiro. Tetraplégico de nascença (faltou oxigênio durante o parto), há um ano Leonardo se submete à equoterapia (técnica que usa a equitação para melhorar o estado de saúde). Hoje, é capaz de feitos que, tempos atrás, eram inimagináveis. De cima do cavalo, por exemplo, lança um bambolê e acerta no alvo, um cone de plástico. E ele sonha mais. "Sou otimista. Ainda acredito, um dia, ser jogador de futebol", diz Leonardo. Os progressos do filho emocionam a mãe, Kátia Aguiar, 34 anos. "Ele está com mais força para apoiar o pescoço e mastigar os alimentos. Não imaginava que ia ser uma recuperação tão rápida", festeja.
Para ajudar no tratamento do
menino, ela havia tentado fisioterapia, hidroterapia e natação. Nada foi tão
eficaz quanto a equoterapia. Na verdade, o uso de animais no tratamento de várias
doenças tem sido um
recurso cada vez mais utilizado. Várias pesquisas demonstraram que os bichos têm
um fabuloso poder terapêutico. "Eles são remédios vivos",
afirma a veterinária Hannelore Fuchs, uma das principais especialistas no
assunto do País. De acordo com pesquisas do cientista Dennis Turner, professor
da
Universidade de Duke (Estados Unidos), por exemplo, o contato com os animais
ajuda a reduzir a pressão sanguínea, a diminuir os níveis de colesterol e de
stress. Uma das hipóteses é a de que cuidar ou brincar com um bicho acalma e
traz felicidade, verdadeiros bálsamos para a saúde. "Lidar com eles
também
contribui para a liberação de endorfina, aumentando a sensação de
bem-estar", diz Hannelore.
A veterinária trabalha em
seis instituições. Uma delas é o Hospital da Criança, ligado ao Hospital
Nossa Senhora de Lourdes, na capital paulista. Ela usa os animais para amenizar
o período de internação hospitalar,
aliviando o stress dos doentes. Entre os bichos aos quais ela recorre estão cães,
peixes, tartarugas e coelhos. "O importante é transmitir a mensagem de
alento, tanto para a criança quanto para a família", completa. Os
efeitos da equoterapia também são impressionantes. Os movimentos do cavalo
aprimoram o equilíbrio e a coordenação motora, e também melhoram o tônus
muscular dos pacientes. "O movimento do animal é semelhante à marcha
humana, criando uma memória neurológica que pode ajudar a pessoa a voltar a
andar", esclarece a fisioterapeuta Katuche Baudsun, do Centro Integrado
de Equoterapia e Qualidade de Vida, no Rio. A terapia é indicada para
patologias, como depressão, insônia, deficiências neuromotoras e ainda para
os que têm dificuldade de aprendizagem ou de relacionamento.
Esses resultados explicam o
sucesso da atividade do policial Leonardo Rodrigues, de São Paulo. Seu projeto
Cão Terapia existe há 11 anos e é feito com a ajuda da família, inclusive da
filha Bárbara, cinco anos. No início, era ele quem procurava creches, asilos e
entidades beneficentes para oferecer seus préstimos com oito cães, de raças
variadas. Hoje passou a ser requisitado. "Levamos os cães com os obstáculos
da escola de adestramento. Só de ver os animais as pessoas se identificam e se
sentem mais felizes", garante Rodrigues. A veterinária Yara Cardoso,
professora do instrutor Rodrigues, presenciou uma reação surpreendente em um
asilo. Um cão da raça São Bernardo foi levado até uma senhora que estava na
cama havia mais de um ano. "Pela primeira vez, depois de muito tempo,
ela se sentou na cama. Foi
para acariciá-lo. A enfermeira não acreditou", lembra-se.