Morreu "Buddy", o labrador dos Clinton, talvez o cachorro com mais
histórias para contar do mundo. Se não fosse um irracional, portanto
incapaz de escrever - embora esta condição não tenha inibido outros
escritores - daria para suspeitar que sua morte por atropelamento se
devesse aos rumores de um contrato milionário para publicar um livro,
título provável Memórias da Casa Branca, ou Babando no Salão Oval. "Buddy",
presumivelmente, estava presente nos encontros de Clinton com estagiárias
para fins não-reprodutivos. Inconfidências de assessores, empregados,
amantes, etc.
São um risco constante para dirigentes americanos e ingleses, incluindo
até a família real - no caso dos Estados Unidos, os Kennedy. As revelações
podem ser moderadamente embaraçosas (como a da atriz Angie Dickinson, que
descreveu seu caso com John Kennedy como "os 15 segundos mais memoráveis
da minha vida", bom o "memoráveis", chato o "15 segundos") ou podem acabar
com reputações para sempre.
Em países latinos a fofoca sexual não tem o mesmo efeito, portanto não
é o mesmo risco. A filha que o Mitterrand tinha com sua amante foi motivo
apenas de curiosidade, e de afetuosa surpresa com um pecado menor do
velho, e não prejudicaria sua carreira política mesmo se tivesse aparecido
antes. E o boato de que o Chirac era amante da Claudia Cardinale só
aumentou a sua reputação. Não é que o "farceur" tem bom gosto?
No Brasil existe um imenso lençol subterrâneo, se este é o termo, de
indiscrições conhecidas do poder que nunca vêm à superfície. Tipo todo
mundo sabe, mas ninguém publica. O que é saudável, já que a vida
particular do político só é relevante quando revela falhas de caráter que
afetarão o nosso bolso, como uma tara por dinheiro público, e qual é o
problema de namorar um pouco, se ajuda a relaxar e até a governar e
legislar melhor, desde que a patroa não fique sabendo?
Mas há quem diga que a falta de inconfidências no mercado se deve a
uma insuficiência do nosso setor editorial, que ainda não pôde fazer
ofertas convincentes. Mas isso virá. Se copiamos tanta coisa dos
americanos, não demora copiarmos também a indústria do conta tudo.
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