Uma sombra em Nova York
O Estado de São Paulo, 14/10/2001
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Eram duas senhoras, ambas brasileiras, ambas já entradas na terceira idade. Vinham das compras. Anoitecia em Nova York. Dez metros atrás, perceberam um homem negro, alto, corpulento, que trazia pela coleira um baita cachorro. Dobraram a esquina, para pegar a rua do hotel. O homem dobrou também. Apressaram o passo, querendo tomar distância. A estranha figura, de óculos escuros, ia se tornando mais e mais incômoda. Era uma sombra, para elas, aterradora. Felizmente, o hotel. As duas senhoras entram, aliviadas. Mas por pouco tempo, pois quando o elevador chega, chega para ele também. Os três, ali, confinados, naquele caixote, as duas morrendo de medo. De repente, o negão, sem olhar para o cachorro, murmura uma palavra de ordem: Seat! Seat! O cão, um alentado Labrador, obedece e senta. Uma delas, mais sôfrega, acha que o homem está falando com ela e vai logo se agachando. O negão mal disfarça um sorriso incontido. Para alívio geral, a porta do elevador se abre. O indesejado salta, acarinhando o cachorro. Na tarde do dia seguinte, as duas hóspedes, já de viagem marcada, mandam descer as malas. Pedem a conta. - O hotel das senhoras está pago! - Como? Passamos cinco dias aqui, não nos cobraram nada. - Madame, quem pagou a conta foi aquele moço que subiu no elevador com as senhoras. Ele contou, morrendo de rir, que quando ele mandou o cachorro sentar, uma das senhoras, tremendo de medo, sentou também. Ele disse que ficou com pena e resolveu se desculpar, pagando o hotel das senhoras. O distinto não era outro senão Michael Jordan. O próprio. |