Em Puerto Iguazu, a segurança é reforçada
Jornal da Tarde, 17/09/2001
Atentados nos Estados Unidos na semana passada provocaram ação imediata na região, que faz fronteira com o Brasil e o Paraguai
O cartaz que oferece 3 milhões de pesos (3 milhões de dólares) de recompensa, por informações que levem à prisão de terroristas, ganhou grande atualidade em Puerto Iguazu, cidade argentina na fronteira com o Brasil. A peça, de fundo negro, com imagens de túmulos, refere-se a dois atentados a bomba ocorridos em Buenos Aires, com um total de 107 mortos, há alguns anos.
O primeiro, contra a embaixada de Israel, deixou 12 mortos. O outro, em 1994, matou 95 pessoas na sede da Associação Mutual Israelita Argentina. "Há que se encontrar todos os culpados", prega o cartaz, afixado à entrada da sede da Germanderia Nacional Argentina (de policiais militares federais), em Puerto Iguazu.
Os atentados terroristas contra os Estados Unidos provocaram ações imediatas nesta área. A germanderia reforçou o número de homens no posto de fronteira - no lado argentino da Ponte Tancredo Neves, sobre o rio Iguaçu, que liga com a brasileira Foz do Iguaçu. O número dobrou: de 35 passou para 70.
No reforço incluiu-se um cão labrador, treinado para detectar a presença de explosivos e drogas. Essas medidas foram adotadas em postos ao longo da rodovia que leva a Buenos Aires.
O comandante do Esquadrão 13-Iguazu, da germanderia, Juan Bautista Barrios, diz que a fiscalização na fronteira não visa grupos étnicos árabes em particular. "Se um árabe com pedido de captura surgir, então será detido."
Mas o que se diz nas conversas de escalões subalternos é diferente. Há uma atenção determinante sobre os árabes.
Ao contrário de Foz do Iguaçu e da paraguaia Cidad del Este (que formam a "tríplice fronteira"), não há uma comunidade árabe nesta cidade argentina.
O comandante Barrios justifica o aumento do efetivo como "medida de segurança fundamental para garantir a normalidade" da entrada de estrangeiros no país. A aduana argentina (ao contrário da paraguaia, neste ponto da fronteira) faz um registro de pessoas e veículos, com hora e dia de entrada. Repete a operação na saída.
O mesmo procedimento é usado com os passageiros que desembarcam no aeroporto. Barrios está aborrecido com notícias publicadas por jornais argentinos, de que 20 pessoas foram presas, este mês, ao desembarcarem no aeroporto. Diz que foram apenas quatro, nenhuma por terrorismo.
Com a crise argentina, Cidad del Este parece uma cidade abandonada. Os moradores reclamam da penúria, mas não da segurança. Dizem-se chocados com os atos terroristas nos Estados Unidos - país com o qual a Argentina se alinha - mas revelam que o reforço policial na fronteira e na rodovia para a capital lhes dão tranqüilidade.
Um diretor da Câmara de Comércio, Juan Carlos Aranda, diz que a fronteira é bem fiscalizada desde os atentados contra os israelenses. Em outro campo, o econômico, a situação é diferente. Aranda queixa-se dos reflexos do "câmbio irreal" argentino sobre a economia da cidade.
Com um peso valendo um dólar, "a praça comercial ficou vazia". "Todo mundo compra em Foz." Diz que, em 2000, US$ 30 milhões (R$ 78 milhões) foram para Foz. "Metade saiu oficialmente, e metade não declarada." Nesta metade estão os gastos de quem foi ao barbeiro, ao restaurante, ou abasteceu o carro.
Um levantamento da Câmara de Comércio indica que dos 1.450 pontos comerciais, 600 fecharam. Ontem, mesmo para um domingo, havia poucos abertos.
Puerto Iguazu tem 28 mil habitantes. Aranda estima que só 10 mil conseguiram manter-se na classe média. Outros 10 mil empobreceram e 8 mil estão "na indigência".
(V.S.)
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