Conta tudo por dinheiro
O Estado de São Paulo, 05/01/2002
|
Morreu "Buddy", o labrador dos Clinton, talvez o cachorro com mais histórias para contar do mundo. Se não fosse um irracional, portanto incapaz de escrever - embora esta condição não tenha inibido outros escritores - daria para suspeitar que sua morte por atropelamento se devesse aos rumores de um contrato milionário para publicar um livro, título provável Memórias da Casa Branca, ou Babando no Salão Oval. "Buddy", presumivelmente, estava presente nos encontros de Clinton com estagiárias para fins não-reprodutivos. Inconfidências de assessores, empregados, amantes, etc. são um risco constante para dirigentes americanos e ingleses, incluindo até a família real - no caso dos Estados Unidos, os Kennedy. As revelações podem ser moderadamente embaraçosas (como a da atriz Angie Dickinson, que descreveu seu caso com John Kennedy como "os 15 segundos mais memoráveis da minha vida", bom o "memoráveis", chato o "15 segundos") ou podem acabar com reputações para sempre. Em países latinos a fofoca sexual não tem o mesmo efeito, portanto não é o mesmo risco. A filha que o Mitterrand tinha com sua amante foi motivo apenas de curiosidade, e de afetuosa surpresa com um pecado menor do velho, e não prejudicaria sua carreira política mesmo se tivesse aparecido antes. E o boato de que o Chirac era amante da Claudia Cardinale só aumentou a sua reputação. Não é que o "farceur" tem bom gosto? No Brasil existe um imenso lençol subterrâneo, se este é o termo, de indiscrições conhecidas do poder que nunca vêm à superfície. Tipo todo mundo sabe, mas ninguém publica. O que é saudável, já que a vida particular do político só é relevante quando revela falhas de caráter que afetarão o nosso bolso, como uma tara por dinheiro público, e qual é o problema de namorar um pouco, se ajuda a relaxar e até a governar e legislar melhor, desde que a patroa não fique sabendo? Mas há quem diga que a falta de inconfidências no mercado se deve a uma insuficiência do nosso setor editorial, que ainda não pôde fazer ofertas convincentes. Mas isso virá. Se copiamos tanta coisa dos americanos, não demora copiarmos também a indústria do conta tudo. |